Obrigado

Hoje recebi um obrigado daqueles que deixa feliz quem o diz e quem o recebe. Um agradecimento que consegue alegrar todo um resto de dia, um Prozac natural, sem efeitos colaterais. Não, não foi um obrigado daqueles que se olham nos olhos, com um largo sorriso estampado no rosto, foi apenas um singelo agradecimento, feito de passagem, um obrigado saltitante. O meu simples ato de ceder o caminho a um senhor, um tanto simpático e desengonçado, fez um dia feliz.

Obrigado!

Assalto surreal

Fui assaltado hoje no centro, ao meio-dia, numa parada de ônibus bem lotada. O curioso é a confirmação de que o vale-transporte é cada vez mais uma moeda universal:

- Cara, não quero tirar a arma que tenho aqui, estou com mais dois amigos ali... consegue um dinheiro.
- Bah, só tenho umas moedinhas...
- Aceito vale, me vê uns três ou quatro!
- Hm, só tenho dois, pode ser?
- Pode, valeu!
- Obrigado...

Contradição

Slogan de uma loja aqui de Porto Alegre (grifo meu):

Bodh Gaya - Espiritualidade e consumo

Dá pra acreditar?

Fatalismo

Já repararam como o ser humano tem medo do futuro, e muito mais de tentar prevê-lo?

Sempre que se pergunta (principalmente para pessoas mais velhas, educadas em uma visão cristã de mundo) sobre algum plano futuro, como uma viagem próxima, a resposta quase sempre termina com um "Se Deus quiser...".

É como se fosse um pecado tentar contrariar a vontade divina do futuro já pré-programado, como se fôssemos castigados por tentar dizer algo que de alguma maneira possa contrariar o destino.

Mas na verdade não seria uma petulância, uma arrogância e uma contradição achar que esse Ser Todo-Poderoso se importaria com nossas palavras e nossos planos, já que até essas palavras e esses planos já estariam todos pré-definidos?

Nomenclaturas

Alguém já parou para analisar o nome daquele bichinho bem desagradável: FEDE-FEDE?

Flanelinhas

Do jeito que a coisa anda, daqui a alguns anos esses sujeitos que vivem da extorsão alheia vão querer começar a cobrar dos pedestres o direito de caminhar pela rua.

E isso também vai ser visto como algo normal, nesse nosso Brasil.

Brasil: o país do medo

Tenho medo de sair a pé fora de casa, tenho medo de dirigir à noite, e tenho medo ao entrar em meu carro estacionado na rua. Tenho medo de mosquito, de dar carona, de passar perto de carro-forte e de catadores de lixo (quem sabe que armas eles escondem em seus carrinhos?). Tenho medo de encomendar coisas através dos correios (já me perderam três produtos) e de ser passado para trás em concursos públicos. E agora, não poderia ser diferente no país do descaso, tenho medo de uma de minhas grandes paixões da infância: andar de avião.

Dias de chuva

Um dia de chuva é uma das situações onde o egoísmo humano pode ser melhor percebido (a direção no trânsito é outra): já notaram que as pessoas que possuem um guarda-chuva para se proteger, mesmo assim, sempre insistem em caminhar por debaixo das marquises, obrigando, deste modo, aos indivíduos desprovidos de tal aparato a andar pela chuva, pois, caso contrário, terão uma grande chance de ter o olho perfurado pelos malditos arames de sustentação dos malditos guarda-chuvas?!

Mas já fiz uma promessa: na próxima precipitação, caminharei sempre reto, sem desviar de ninguém, olhando para o chão. Não dou 30 segundos para o primeiro encontrão e xingamento. A resposta? "E por que tu, oh senhor da rua, não desviaste?"

Presente?

"La física cuántica proporciona, sin embargo, un consuelo a quienes se lamentarían de la desaparición del presente: ninguna duración puede ser inferior al «tiempo de Planck», que dura 5,4.10-44 segundos. Así pues, en buena lógica, es lícito decir «soy» durante este lapso; pero hay que decirlo muy deprisa."

Albert Jacquard

Nu Pogodi

Alguém mais assistiu a esse ótimo desenho russo quando era criança?

Os episódios 4, 5 e 8 são os meus preferidos.

O tempo de cada um

Gordinho, boa gente, sempre com um simpático sorriso amarelo em seu rosto. Como de costume, come em um buffet livre, criando coloridas cordilheiras de alimentos em seu prato fundo. Como sempre, usa uma camisa branca, com alguns botões abertos e meio suja. Nas pernas, uma larga calça social, um pouco rasgada pelo uso, e desgastados sapatos pretos.

Em seus 26 anos de vida já tinha se apaixonado duas vezes, ambas sem sucesso. Hoje, quando ia começar a consumir a cadeia montanhosa com sua colher, se apaixonou pela terceira vez. A garota que lhe arrebatou se sentava a duas mesas de distância e comia somente um pouquinho de salada. No mesmo instante, o jovem se encheu de energia e tomou a decisão de mudar de vida, de emagrecer e quem sabe assim ter alguma chance com o sexo oposto.

Largou o prato e saiu rapidamente do restaurante. Quem sabe iria comprar uma flor para a menina ou talvez procurar uma academia nas proximidades.

De repente parou. Teve um infarto fulminante. Infelizmente já era muito tarde para ele.

Liberdade?

Somos escravos de nosso corpo, enjaulados nessa prisão de carne e osso.
Corpo que nos obriga incessantemente a alimentá-lo, dando-nos como recompensa uma breve sensação de saciedade.
Este mesmo corpo nos obriga indefinidamente a buscar satisfação sexual, dando-nos uma recompensa um pouco maior no fim, caso atinjamos seu objetivo.
Somos como ratinhos de experiência que recebem seu pedaço de queijo ao final dos testes, pelo trabalho bem feito.
Somos servos de nossa existência. Obrigados a existir, existir numa busca inexorável de comida e procriação.