Um conto estúpido

Era um estadozinho desses de interior. O governador, orgulhoso e visionário, resolveu fazer um museu na capital. E haveria melhor lugar para um museu do que a própria prefeitura? E lá foi criado o Museu Estadual, exibindo quadros de artistas renomados como Zé Kalango, Leonardo Manzi, Itamar Castroman e um de Picasso. Picasso? Como assim, Picasso? Pois é, Picasso mesmo, comprado com o orçamento dos quatro próximos anos anteriormente destinados à saúde e à educação. Pô, a cidade e o estadinho deveriam entrar no mapa e tem coisa mais cultural do que um Picasso?

Para proteger essa cultura toda, o governador foi buscar no Japão o sistema de segurança mais muderno do mundo. Dinheiro pra isso? As casas populares podem ficar pra depois, não podem?

Para a inauguração estavam presentes todas as personalidades mais importantes do estado: prefeitos e fazendeiros. Todos chegaram à prefeitura na data marcada, asseados e com seu melhor traje, afinal, novos contatos poderiam ser feitos. Todos elogiaram o champagne genérico vindo da serra gaúcha e esperaram pacientemente a estrela da noite, o Senhor Governador. Mas o governador, por descuido e um pouco de descaso com os convivas, não compareceu, pois resolveu conversar mais sobre a inadimplência civil com a prefeita de Governador Córnio no motelzinho da cidade.

Eliana Meneghel, mulher do prefeito de Poliópolis, muito prendada, reparou que uma das obras estava fora de prumo. De bem fresca que era, resolveu ajeitar o quadro. Foi só tocar o dedinho pentelho para o novíssimo sistema de segurança ser acionado, deixando todos presos dentro da prefeitura. Portas se fecharam nos quatro cantos e ninguém quis fugir enquanto dava tempo para não perder a compostura. Para desativar o sistema havia um pequeno dispositivo que necessitava de uma senha com quatro dígitos postos na ordem correta. Começaram os palpites:

- Tenta a data de nascimento do prefeito, dia quatro de novembro. 0411.
- Tenta o dia que ele conheceu a Carla, a ultima aman..., hm, na festa de Corpus Chrsti. 1506
- Tenta... sei lá, 7325, meu número de sorte no jogo do bicho. Pavão e Carneiro!

Nada dava certo. Um dos presentes, fã de seriados televisivos, lembrou-se de Magaiver. Juntou um chiclete com um grampo de cabelo mas não teve o que fazer com eles.

Já era tarde da noite, muitos haviam perdido a costumal compostura e dormiam pelos cantos. O Senhor Governador, que já havia discutido tudo e mais um pouco sobre inadimplência, resolveu voltar à prefeitura e dar um 'alô' aos amigos. Chegando lá, viu aquela confusão toda. Pois não é que tinha esquecido a senha? Tinha anotado ela num papelzinho mas acabou jogando fora, sem querer, junto com as cobranças do banco. E agora? Chamaram o Professor, respeitado na cidade por sua sabedoria.

- Que tal tentarmos um por um senhores? Melhor começar logo, uma hora dá certo. Se não me engano, as possibilidades são de dez vezes quatro ou de dez na quarta potência, um desses.

Tentativa vai, tentativa vem e nada. Um dia se passa, os presentes fazendo turnos de tentativas. O Senhor Governador aproveita o ensejo e convida a imprensa do país. Ele afinal conseguiu colocar seu estadozinho no mapa. Poderia até encomendar um busto próprio e exibí-lo no centro da cidade agora.

Já é outro dia. Repórteres, fotógrafos, curiosos e chatos dormem espalhados pelo chão. Dona Zulmira, a faxineira, mulher muito respeitosa e religiosa chega no seu horário costumeiro pra arrumar a sujeira da prefeitura.

- Dia! Que vagabundagem toda é essa? Algum ladrão aí preso?
- Sim, er, quer dizer... Pois é dona Zulmira, o pessoal que eu convidei pra inauguração tá trancado aí desde a festa...
- Mais é festinha particular? Tem essa qui não!

Decidida a acabar com a poca vergonha em nome do Senhor e manter seu emprego lá se foi dona Zulmira e desativou a geringonça. A senha? 1234.

2 comentários:

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